31/07/2007 00:17
Dez anos
Foram dez anos, exatamente dez anos atrás quando a fui buscar no Hotel da Alameda Lorena onde se hospedavam cientistas e professores para os seminários da USP. Você tinha vindo para um encontro de farmácia. Alguns meses antes nos tornamos amigos virtuais, trocando conselhos e nos consolando mutuamente pelo ICQ.
Eu me encantava com seus modos, sua graça, quando chegava entusiasmada contando como fora a uma festa e chamara a atenção por sua beleza; ou pedindo uma pausa, para que pudesse esquentar o jantar do pai, que acabara de vir do trabalho; ou quando me mandava poemas que se encaixavam tão bem nas situações que atravessava.
Não tinha a menor idéia do que iria encontrar no hotel, quando marquei pegá-la às 20 horas para um jantar. Pelas molecagens nas salas de chat, imaginava uma menina magrinha, elétrica, com cabelos ouriçados, mesmo você sutilmente me avisando que não era bem assim.
Parei o carro no pátio do hotel e te olhei de leve caminhando em minha direção. Apresentou-se, entrou, e nem olhei direito para seu rosto. Estava vexado de sair com uma moça tão mais nova, ainda que não houvesse nenhuma intenção maior no encontro, a não ser o de conhecer uma amiga virtual. Era eu mentindo para mim. E você para você, quando supôs que seria apenas um encontro corriqueiro.
Minha timidez impediu-me de perceber, de cara, que você estava inibida. Nem parecia aquela serelepe que atazanava a sala com provocações. Só a olhei de fato, só vi seus olhos, olhei seu rosto, os dentes meio separados quando chegamos ao Chalé Alpino, pedimos o prato e o vinho, e parei para respirar.
Nem sei se parei para respirar ou deixei de respirar quando, pela primeira vez, olhei seu rosto. Foi um choque, um impacto que não esperava. O vinho correu solto e tirou a inibição. A conversa fluiu, todas as confidências trocadas no ICQ vieram à tona, estimuladas pelo vinho.
No túnel escuro em que me metera, de repente seu rosto era um farol, tão intenso que, em determinado momento, a chamei para vir embaixo da minha asa, e avancei um beijo, que você não recusou.
Depois, fui deixá-la no hotel, mas a acompanhei até o apartamento. Nem me lembrava direito o que tinha acontecido. Durante muito tempo imaginei que era um sonho e que, em determinado momento, eu a cobria de declarações, uma enxurrada de palavras, apaixonadas, segurando seu rosto com minhas duas mãos.
Muito tempo depois você me disse que não havia sido sonho. Fiz, de fato, as declarações, justo eu que fugia de qualquer envolvimento como o diabo da Cruz, que tinha todos os pruridos para expor sentimentos, quanto mais para fazer declarações. Mas tudo o que eu imaginara sonho, tinha de fato acontecido.
Naquela noite começou uma nova vida, complicada, difícil, mas que me salvou da solidão.
Hoje, dez anos depois, quando vejo nossas menininhas, vejo a mocinha de 25 anos tornando-se mulher, sofrida, amadurecida, companheira, constato que já fiz muitas apostas na vida, muitas apostas erradas.
Mas na maior delas, ganhei você, as menininhas, e a certeza de uma longa vida companheira pela frente.
enviada por Luis Nassif
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