07/07/2007 22:24
As orações do Brasil
O tempo acaba sufocando muitas lembranças da infância. Uma delas foi a religiosidade católico-mineira, tão presente naquelas fraldas da Mantiqueira por onde se chegava subindo a montanha e, depois, entrando na boca do vulcão, da minha Poços de Caldas.
Hoje em dia tornei-me cidadão contemporâneo, amarrado ao ritmo da vida moderna, à neurose das grandes cidades, escravo do tempo e dos prazos. Mas meus mortos e minhas lembranças sempre renascem uma vez por ano, quando o país se recolhe e celebra Todos os Santos e Finados.
Cresci em ambiente católico, fiz a primeira comunhão, e fui escolhido, junto com uma coleguinha francesa para compor o casal que receberia a hóstia consagrada na frente do altar, em nome do grupo da irmã Terezinha, a irmãzinha leiga que nos preparou para o mais belo dos sacramentos, mais bonito que o batismo e o casamento.
Admito que nos ensaios engasguei com a hóstia e a tirei do céu da boca com minhas mãos ímpias, ainda bem que não consagrada, caso contrário jorraria o sangue de Jesus crucificado
Depois, fui Cruzado Mariano, Apóstolo, fiz as Treze Sextas Feiras e quase completei os Cinco Sábados. Usava Escapulário e Agnus Dei, ambos garantindo a salvação eterna e o aviso da morte, um dia antes, comunicado diretamente por Nossa Senhora.
O Escapulário é um saquinho de pano, com um cordão para pendurar no pescoço. Dentro, tem o coração de Jesus e o de Maria bordados em pano. Já o Agnus Deis é uma medalhinha benta, que se prega na roupa com alfinete. Aberta, mostra lado a lado os corações de Jesus e de Maria.
Se esses símbolos impressionavam, assim como o brasão dos Cruzados, as músicas não ficavam atrás. Jesus Cristo está realmente / de dia, de noite, presente no altar / esperando que cheguem as almas / ansiosas, silentes, para o visitar), era nosso hit, principalmente na missa das onze, na Matriz.
Havia as músicas de procissão, algumas muito chatas, como o queremos Deus / homens ingratos / ao pai supremo, ao redentor e muitas em latim. E havia as orações das missas, algumas épicas, de arrepiar, como o trecho que fala em Santo, santo, santo / é o senhor Deus dos exércitos / hosana nas alturas / bem vindo os que vêm em nome do senhor.
As orações para crianças eram particularmente encantadoras. Nem sei se foram preservadas para as novas gerações católicas. Para dormir, podia-se escolher entre duas clássicas, ambas dedicadas ao Anjo da Guarda. A minha preferida era: Santo Anjo do Senhor / Meu zeloso guardador / Se a ti me confiou a piedade divina / que me guarde, que me rege / me governe e me ilumine. Havia outra, muito popular, mas que considerava meio bobinha para os meus dez anos: Com Deus me deito / Com deus me levanto / Na graça de Deus / do divino Espírito Santo / Para Anjo da guarda que me guarde / São Jose rogai por mim / agora e na hora de minha morte, amém.
Havia uma oração especial na família, o Salmo 90, oração de proteção. Carlos Lacerda morreu com um Salmo 90 na carteira, provavelmente o mesmo com que foi presenteado por minha avó Martha, escrito com sua letrinha graciosa. Logo após o atentado da rua Toneleros ele telefonou para meu avô Issa, para dizer que tinha sido salvo pelo Salmo 90. Quando comecei na profissão, a primeira providência da vó Martha foi escrever o Salmo 90, que eu trazia na carteira comigo.
E havia as orações clássicas: Ave Maria, que não me comovia muito, Pai Nosso, que a gente falava antes padre nosso, e mencionava os nossos devedores, o Credo que era mais um exercício de memória, do que de emoção. E o Salva, Rainha. E aí, meu amigo, era como se a gente fosse transportado para os umbrais do tempo, para o início das religiões, para os mistérios divinos. Salve Rainha, mãe de misericórdia / a vida, doçura, esperança nossa, salve / A vós bradamos os degredados filhos de Eva / a vós suspiramos, gemendo e chorando, nesse vale de lágrimas / Eia, pois, advogada nossa, vossos olhos misericordiosos a nós volvei / E depois desse desterro nós mostrai Jesus / bendito fruto do vosso ventre / ó clemente, ó piedosa, ó doce, sempre Virgem Maria / rogai por nós, Santa Mãe de Deus / para que sejamos dignos das promessas de Cristo.
Para incluir na lista Crônica Semanal
enviada por Luis Nassif
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