21/07/2007 17:11
A saga de Álvaro Alberto
O desenvolvimento da moderna pesquisa tecnológica brasileira está diretamente associado à energia nuclear. Nos anos 70, o início do programa nuclear Brasil-Alemanha levou o então Secretário de Tecnologia do governo Figueiredo, José Israel Vargas, a montar os primeiros programas sistemáticos de qualidade. O fracasso do programa levou o Conselho Nacional de Energia Nuclear (CNEM) a montar uma parceria inédita com a Universidade e, através do IPEN (Instituto de Pesquisas Nucleares) a controlar o processo de enriquecimento do urânio.
No início dos anos 50, foi a busca do domínio sobre a energia nuclear que levou o governo criar o Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq) e entregar seu comando ao almirante Álvaro Alberto.
Naqueles anos, o Brasil esteve a ponto de ter seu primeiro reator atômico, uma história ainda pouco conhecida. A guerra fria já começara quando Álvaro Alberto esteve nos EUA. Uma sucessão de acordos militares mal explicados tinha conferido aos americanos o monopólio sobre a pesquisa de minerais brasileiros. Na época, Álvaro Alberto havia enviado minérios brasileiros à França, na esperança de conseguir o apoio dos franceses ao projeto nuclear brasileiro. Quando a informação vazou, provocou enorme reação de Washington.
Em sua visita aos EUA, Álvaro Alberto havia se avistado com o pai da bomba atômica americana, o físico Robert Oppenheimer. Os acordos firmados com os EUA garantiam ao Brasil a entrega de alguns reatores pequenos, apenas para pesquisa de laboratório. O conselho de Oppenheimer havia sido outro: No Brasil, não há o que discutir (...) Tem que fazer logo o reator atômico, disse-lhe o físico. Sugeriu a construção de um reator simples. Deixem essa história de reator experimental e façam um reator desse tipo, porque servirá de escola para vocês.
Seguindo a sugestão, e ante a resistência dos EUA em fornecer tecnologia, Álvaro Alberto encomendou à Alemanha três unidades de ultracentrifugadores (sistema para enriquecimento de urânio). Isso foi em princípio de 1954. As tropas de ocupação da Alemanha não autorizaram a venda.
Tempos depois, restabeleceu-se a soberania da Alemanha. Mas um documento do governo americano ao brasileiro, que permaneceu sob sigilo por algum tempo, encerrou as negociações. Apesar do equipamento claramente não poder ser utilizado para fins bélicos, o documento dizia que o estabelecimento no Brasil de um processo de extração de urânio físsil (...) poder ser considerado como uma ameaça potencial à segurança dos Estados Unidos e do Hemisfério Ocidental.
Foram necessários quase cinqüenta anos para se recuperar o terreno perdido e se dominar o ciclo de enriquecimento de urânio. Mas as sementes plantadas por Álvaro Alberto já tinham encontrado terra fértil, ajudando a forjar a parte mais avançada da pesquisa tecnológica brasileira.
Para incluir na lista Crônica Semanal
enviada por Luis Nassif
Feed: Seja avisado quando este blog for atualizado ::
(O que é isso?)