20/08/2007 10:14
Meu tipo inesquecível
Coluna original de 28/12/1994
Meu tipo inesquecível foi um advogado. Com ele aprendi o significado da sua profissão, o devotamento solitário e fervoroso à causa, a solidariedade ao cliente, o culto aos valores essenciais que tornam o advogado instrumento permanente de consagração dos direitos individuais.
Doutor Francisco Rangel Pestana era advogado da "Folha" quando, em 1984, meti-me no meu primeiro processo --uma interpelação de um curso de inglês denunciado na recém-criada seção "Dinheiro Vivo". Otávio Frias Filho alertou-me, brincando. "Vá falar com o dr Rangel. Se ele for com sua cara, você esta salvo. Se não for, precisamos arrumar outro advogado".
Subi à sua sala, no décimo andar do prédio da "Folha". Atrás de pilhas de processos, estava a figura alta e grisalha, mais de setenta anos, olhar severo por cima dos óculos, medindo o interlocutor. "Vocês jornalistas são todos uns irresponsáveis", começou ele, "parece que não atentam para o significado das palavras". E indagou o que eu tinha querido dizer com determinada expressão forte a respeito do curso. "Isso mesmo que as palavras significam", respondi-lhe, algo mordido. "Você tem provas sobre o que está afirmando?", continuou ele. "Tanto tenho, que escrevi".
Sua expressão foi mudando. "Posso escapar pela tangente e dar uma explicação que satisfaça o advogado da parte contrária ou posso partir para o pau. O que você prefere?". Expliquei-lhe que o curso em questão tinha procurado aproximações pouco ortodoxas comigo, e que preferia que ele partisse para o pau. Seu olhar iluminou-se. "Então, vamos para o pau". E ficamos amigos.
O decreto do Cruzado
Tempos depois, no governo Sarney, envolvi-me num processo maior, movido pelo consultor-geral Saulo Ramos em função de denúncias de alterações na segunda edição do Plano Cruzado --recriando as indústrias da concordata e da liquidação extrajudicial.
Rangel Pestana assumiu a defesa, num momento em que o país mal saía das fraldas do autoritarismo. Foi uma guerra. No meio do processo, saí da "Folha" e abri mão da defesa judicial proporcionada pelo jornal. Orgulho besta, já que não tinha condições financeiras de contratar um advogado.
Fui me despedir do dr. Rangel, e agradecer seu empenho. "Você não está satisfeito com meu trabalho?", indagou preocupado. "Pelo contrário, é que estou saindo do jornal e o senhor é advogado da 'Folha'", expliquei-lhe. "Engano seu. A 'Folha' me paga, mas meu cliente é você", respondeu. Resolvi abrir o jogo. Disse-lhe que não tinha condições de pagar seus honorários. "Quem falou em honorários?", redargüiu.
Sua atuação no processo foi heróica. Com problemas de saúde, chegou a sair direto do hospital para comparecer a uma das audiências, e retornar em seguida.
Quando o processo terminou --ele vencedor-- já tinha condições de pagar ao menos parte dos seus honorários. Não aceitou. Comprei um jogo de canetas e fui visitá-lo em sua casa. Foi pouco antes de sua morte. Levei lá minhas filhas pequenas. Depois fomos até a Livraria Cultura, que mantinha um encontro todo sábado com jornalistas, poetas e escritores. Lá ele bebeu, divertiu-se a valer, contou histórias da mocidade, sua relação com Roberto Marinho, com a Antárctica.
Pouco depois morreu, deixando em mim lembranças para toda a vida.
enviada por Luis Nassif
18/08/2007 09:45
O medo brasileiro
Publicada originalmente em 24/10/2003
Quando tinha cinco anos, minha filha me dizia que acordava de noite com medo, por causa de sonho ruim. A Mariana, hoje com 27, também passou por esses medos. Mas tinha uma babá que a embalava ao som de boi, boi, boi do curá / pega essa menina que não quer mamá.
O medo sempre fez parte da nossa cultura. Foi companhia permanente das nossas infâncias, muitas vezes trazido por babás e empregadas e suas histórias maravilhosas.
Menino ainda, provavelmente com a idade da Beatriz, tinha sonhos ruins. Imaginava o vendedor de amendoim fazendo plantão na frente de casa, em plena madrugada. A casa, então, não tinha grades e dava para o largo do São Benedito, um enorme terreiro onde, nos meses de abril e maio os congos traziam seus cantos rituais. Mas nem os espíritos dos congos que povoavam o São Benedito nos protegiam do medo do vendedor de amendoim.
Espalhou-se na época que o vendedor de amendoim era tarado. A gente imaginava que ele entregava amendoim enfeitiçado para os meninos que, depois de ficarem grogues, eram algemados e chicoteados. Nosso conceito de tarado não ia muito além disso.
Quando se reuniam minha mãe, minha avó Martha e minha tia-avó Mariana, aí o medo e a tragédia corriam soltos. Eu ficava encolhido enquanto elas contavam a história da linda normalista de São Paulo, que pegou o ônibus para casa, foi seguida por um marginal que a matou. Os crimes eram tão escassos na época que, cada qual, rendia uma novela caseira. São Francisco de Assis e o Sagrado Coração de Jesus me ajudaram a enfrentar os pesadelos que sempre se seguiam aos causos das três.
Nos anos 50, em Poços de Caldas, estávamos a léguas de distância de ter medo de ET. Nosso medo era concreto, de personagens que habitavam as fazendas --como sacis, caiporas, lobisomens e mulas sem cabeça. Tio Zito Vilela quase quebrou quando descobriram uma criação de sacis em sua fazenda em São Sebastião da Grama e houve uma debandada de colonos.
A história da região começou a mudar lá pelo início dos anos 70. Fui a São Tomé das Letras a serviço, por ocasião daquele fiasco que foi a visita do cometa Kohoutec, para saber o que os moradores achavam do cometa, da perspectiva de fim do mundo, e dos teosofistas que se mudaram para lá atrás de uma carona de disco voador, antes que o tal do mundo se acabasse.
Subi a pedreira, abri a porta da igreja, dei de cara com a pintura de um barão de olhar alucinado. Ao lado, uma velhinha quase nonagenária que tomava conta da igreja. Indaguei se era verdadeira a história. É verdade, confirmou. E eles viram algum disco voador. A velhinha, taxativa: Nenhum. E a senhora, já viu algum?. E ela, com ar de enfado por trás das lentes grossas dos óculos: Eu? Estou cansada de ver.
Foi o período em que os sacis começavam a ser expulsos do sul de Minas pelos discos voadores. Era o prenúncio do ET de Varginha.
Com o tempo, esses medos maravilhosos, mágicos, parte intrínseca da cultura brasileira, parte essencial de um país que ainda não se urbanizara, vão cedendo lugar a outras formas, mais contemporâneas e cruéis de medo.
Primeiro, o medo de enfrentar a metrópole, a primeira profissão, o medo das primeiras opções de vida. Em muitos, vi o medo do desemprego.
Nos anos 70, havia o medo permanente da tortura, pelo menos na nossa profissão.
E quem era o pai que nos confortava a todos? Quem me refresca a memória é o leitor Celso Dival Moreira Lima que me enviou e-mail sobre o caso Galdino, desses da gente guardar para sempre, sobre a necessidade da coragem para enfrentar o estabelecido, a unanimidade e a sede de sangue: O maior cristão, talvez o único, que eu conheço é Dom Paulo Evaristo Arns, que teve até parte da sua Igreja voltando-se contra ele por ser o porta-voz dos oprimidos. Um preso político certa vez comentou: "Ele colocava a mão em meus ombros e falava apenas três palavras: coragem, coragem, coragem". Esta é a única oração que eu até hoje aprendi.
Para incluir na lista Crônica Semanal
enviada por Luis Nassif
11/08/2007 19:31
Das pequenas lembranças inesquecíveis
Do que minhas filhas irão se lembrar de mim, de que gesto, que molecagem, que pito, que conselho? Lá sei eu.
Outro dia conversava com o Paulo Leandro, diretor de jornalismo da TV Cultura, neto do grande compositor paulista Marcelo Tupinambá. O avô já velho, enxergando pouco, levava o Paulo, com cinco anos, o irmão dele, com seis, para andar de bonde. Em um dos passeios, Paulo pediu ao avô se podia descer do bonde pela janela. O avô não se fez de rogado. Foi até o motorneiro, cochichou alguma coisa. O bonde parou, Tupinambá desceu e tirou o neto pela janela.
Que neto há de esquecer?
Meu pai não chegava a essas liberalidades. Mas as melhores recordações dele são os pequenos gestos. Lembro-me, talvez com cinco anos, levantando de manhã, antes de ele abrir a farmácia, para uma volta na Circular de Poços. Chegávamos ao ponto final, descíamos, meu pai comprava uma guloseima em um carrinho, não sei se doces ou milho. Comíamos, depois entrávamos no Circular e voltávamos para casa. Só isso. Inesquecível!
Outra lembrança antiga era ele me dando a mão para andar na rua. Tinha um tique, um jeito de passar o afeto discreto, que era roçar com o mindinho a borda da minha mão. Com todas as minhas filhas repeti esse gesto. E em cada afago de mindinho me lembrava do seu Oscar e sua afetividade discreta.
Lembro-me como se fosse ontem da primeira vez que ele e dona Tereza me levaram ao cinema. Foi em uma sessão noturna. Acho que era um musical com o herói de guerra Audie Murphy. Eu era tão pequeno que, durante anos, me ficou a sensação de drama. No musical, há uma cena em que o mocinho leva uma martelada na cabeça e desmaia. Só décadas depois assisti novamente e descobri que ele era acordado por um beijo da mocinha.
O que mais me impressionou não era o filme, mas eu segurando as mãos de ambos, a caminho do cinema, olhando para cima, aqueles dois adultos imensos, poderosos, protetores, conversando em voz baixa, rindo de forma cúmplice. No cinema, a mesma sensação. Um comentava algo com o outro, que ria baixinho. Esticava a orelha tentando captar a conversa, mas não conseguia.
Do que minhas filhas irão se lembrar? Luizinha, certamente, do dia em que a deixei no Shopping Eldorado, depois fui buscá-la. Tinha um dos primeiros celulares. Ela me ligava de orelhão informando a posição. Pedi para ficar na porta do shopping. Passei, e nada. Meia hora para me ligar de novo. Pedi que ficasse na porta do supermercado. Outra volta, e nada. Mais meia hora, me liga de novo. Já impaciente, pedi que ficasse na porta do McDonalds. Estacionei o carro, fui até lá, e nada. Aí ela me liga, do alto de seus dez anos:
-- Papai, em que shoppings você está?
-- No Morumbi, ora!
-- Mas você me deixou no Eldorado.
Pausa.
-- Papai, sabe o que somos?
-- Diga.
-- O Debi e o Lóide (uma dupla que fazia filmes de humor na época).
Quem esquecer há de? Ou quando deixava a Maricota na Escola Pacaembu, e, na frente das amiguinhas, gritava para ela voltar a pedir a bença? Certamente Luizinha não se esquecerá jamais do dia em que joguei sorvete em sua cabeça, ela saiu correndo atrás de mim para descontar e, nesse instante, entram em casa quatro coleguinhas, certinhas como ela. Ou mesmo quando íamos para a banheira, eu enchia de espuma que ia crescendo, crescendo, até transbordar. E a Luizinha, naquele tempo com uns seis anos:
-- Acho que mamãe vai dar uma bronca em nós!
Não sei se Maricota se lembrará de quanto ficava com ela para a mãe ir lecionar, trocava a fralda, que ficava sempre do avesso.
Bibi jamais se lembrará quando, com menos de um ano, a mãe pedia que eu desse banho, e ela escapava feito bagre ensaboado das minhas mãos e deslizava pela banheira. Mas vai lembrar quando viajamos sozinhos para João Pessoa, ela com apenas cinco anos. Dois anos depois, preparou um diário para a escola com o feito mais relevante de cada ano de vida. Com cinco anos, foi a viagem com papai.
Cacá certamente se lembrará do dia em que contou para o vovô que pretendia mudar de nome quando completasse 18 anos. A razão? Os colegas que mexiam: Clara, onde está a Gema? E vovô sugeriu que trocasse o nome para Omelete Nassif. Certamente se lembrará da tia Dodó, do alto de seus sete anos, recomendando: Ignora, Cacá, ignora.
Outro dia, provocadas, as três menores admitiram que o papai (e vovô) era chato. Aí indaguei:
- Querem que eu deixe de ser?
E elas:
- Assim está bom, mas não pode aumentar.
Neste dia dos pais, teremos um almoço com todas, preparado pela primogênita Mariana. Luizinha, minha primeira caçulinha estará fora, em Buenos Aires para onde se mudou. Antes de ontem, conversei com ela pelo MSN. Na despedida, me disse:
-- Boa noite, papai.
Achei que depois de certa idade, as nossas crianças deixassem de falar papai. Ainda bem que não.
Para incluir na lista Crônica Semanal
Enviado por Luizinha de Rodinha
Papai,
Acabo de ler sua crônica (chorando), irei me lembrar do quanto você é carinhoso, afetuoso, tão afetuoso que às vezes se perde nas palavras e atitudes. Vou me lembrar de quando cheguei perdida em paris e lá você estava ... de braços abertos, e me colocou de baixo das suas asas e eu dormi tranqüila, vou me lembrar de quando você e mamãe se separaram e você foi me ver jogar minha partida de futebol, ou de todas vezes que eu fui parar no hospital por me aventurar em meus esportes radicais rs e você largava seu dia corrido para ver se estava tudo bem e ali parecia esquecer de tudo, estaria a me proteger apenas estando ao meu lado e dizendo que tudo ficaria bem.
Me lembrarei dos sorvetes no Santa Rita (troféu porquinho), lembrarei da minha festa de 15 anos, me lembrarei de quando brigamos e eu devolvi Tudinhoo a você, lembrarei de quando fiquei mocinha e você me levou dar uma volta de carro, como deve ter sido difícil pra você, homem, pai e tendo que dar conselhos de mulher e mãe, e quer saber fez muito bem... lembrarei de tudo e com certeza os pequenos momentos, que passam despercebidos são os que marcam... estes sim são os de grande valor... às vezes expressadas materialmente, mas com o fundinho sentimental (estes sim valem).
Pensei demais em você hoje, queria estar ai com vocês, com minha família, te dando aquele beijo e parabéns e dizendo que você é o melhor pai que podia ter...
Então mesmo distante... deixo aqui meu amor por você, deixo meu agradecimento pelo pai maravilhoso que é, pela pessoa honesta e guerreira que nos ensina todos os dias como é cair na batalha diária...
Agora.... espero-te na MINHA casinha, na terrinha do vovô, para darmos voltas, tomarmos vinhos, descansar a mente e o coração, escutarmos uma boa musica e comer uma boa comida rs :-)
Amo você meu papai (alias sempreeee papai)... aqui comigo sempre
enviada por Luis Nassif
31/07/2007 00:17
Dez anos
Foram dez anos, exatamente dez anos atrás quando a fui buscar no Hotel da Alameda Lorena onde se hospedavam cientistas e professores para os seminários da USP. Você tinha vindo para um encontro de farmácia. Alguns meses antes nos tornamos amigos virtuais, trocando conselhos e nos consolando mutuamente pelo ICQ.
Eu me encantava com seus modos, sua graça, quando chegava entusiasmada contando como fora a uma festa e chamara a atenção por sua beleza; ou pedindo uma pausa, para que pudesse esquentar o jantar do pai, que acabara de vir do trabalho; ou quando me mandava poemas que se encaixavam tão bem nas situações que atravessava.
Não tinha a menor idéia do que iria encontrar no hotel, quando marquei pegá-la às 20 horas para um jantar. Pelas molecagens nas salas de chat, imaginava uma menina magrinha, elétrica, com cabelos ouriçados, mesmo você sutilmente me avisando que não era bem assim.
Parei o carro no pátio do hotel e te olhei de leve caminhando em minha direção. Apresentou-se, entrou, e nem olhei direito para seu rosto. Estava vexado de sair com uma moça tão mais nova, ainda que não houvesse nenhuma intenção maior no encontro, a não ser o de conhecer uma amiga virtual. Era eu mentindo para mim. E você para você, quando supôs que seria apenas um encontro corriqueiro.
Minha timidez impediu-me de perceber, de cara, que você estava inibida. Nem parecia aquela serelepe que atazanava a sala com provocações. Só a olhei de fato, só vi seus olhos, olhei seu rosto, os dentes meio separados quando chegamos ao Chalé Alpino, pedimos o prato e o vinho, e parei para respirar.
Nem sei se parei para respirar ou deixei de respirar quando, pela primeira vez, olhei seu rosto. Foi um choque, um impacto que não esperava. O vinho correu solto e tirou a inibição. A conversa fluiu, todas as confidências trocadas no ICQ vieram à tona, estimuladas pelo vinho.
No túnel escuro em que me metera, de repente seu rosto era um farol, tão intenso que, em determinado momento, a chamei para vir embaixo da minha asa, e avancei um beijo, que você não recusou.
Depois, fui deixá-la no hotel, mas a acompanhei até o apartamento. Nem me lembrava direito o que tinha acontecido. Durante muito tempo imaginei que era um sonho e que, em determinado momento, eu a cobria de declarações, uma enxurrada de palavras, apaixonadas, segurando seu rosto com minhas duas mãos.
Muito tempo depois você me disse que não havia sido sonho. Fiz, de fato, as declarações, justo eu que fugia de qualquer envolvimento como o diabo da Cruz, que tinha todos os pruridos para expor sentimentos, quanto mais para fazer declarações. Mas tudo o que eu imaginara sonho, tinha de fato acontecido.
Naquela noite começou uma nova vida, complicada, difícil, mas que me salvou da solidão.
Hoje, dez anos depois, quando vejo nossas menininhas, vejo a mocinha de 25 anos tornando-se mulher, sofrida, amadurecida, companheira, constato que já fiz muitas apostas na vida, muitas apostas erradas.
Mas na maior delas, ganhei você, as menininhas, e a certeza de uma longa vida companheira pela frente.
enviada por Luis Nassif
28/07/2007 07:00
Biriba e o tênis de mesa
A celebração do feito de Hugo Hoyama no tênis de mesa me trouxe de volta boas lembranças dos tempos em que praticava o esporte, que sempre teve ídolos de primeira. O maior deles foi Biriba.
Pelé foi gênio aos 17 anos. Aos 13, apenas Biriba no tênis de mesa e Mequinho no xadrez.
A bem da verdade, naqueles anos 50 e 60, em que apareceram as primeiras glórias do esporte nacional, o tênis de mesa não chegava a ser atividade nobre. Havia o boxe, com Luizão, Fernando Barreto e, principalmente, Éder Jofre; o futebol, com a geração de 58; o salto triplo de Ademar Ferreira da Silva, o atletismo múltiplo do grande José Telles da Conceição e o tênis feminino de Maria Esther Bueno, no final dos anos 50.
Já na década de 60, Thomaz Kock surgia como o grande nome do tênis masculino brasileiro, mas provocava uma implicância danada da imprensa. Para alguns, o craque brasileiro era Ronald Barnes, que se tornou professor de tênis nos Estados Unidos. Outros insistiam em Edson Mandarino, outros falavam muito de um carioca, campeão amador brasileiro, de nome Jorge Paulo Lehmann futuro Banco Garantia. Mas quem levava os títulos era mesmo o Kock, que ainda por cima usava um rabo de cavalo à Woodstock que lhe dava um certo ar de contracultura zen.
O tênis de mesa era o primo pobre do tênis de quadra. Mas foi nele que apareceria o mais precoce fenômeno do esporte brasileiro: Biriba.
Lá na Associação Atlética Caldense sempre tivemos boa tradição no tênis de mesa, que remontava os anos 40. Nos anos 60, veio morar na cidade o Paulo Eugênio, ex-campeão carioca de duplas, e que era filho do Vivaldi, o grande empreendedor que transformou a Cinelândia do Rio e construiu o Quisisana em Poços que teria sido um dos maiores hotéis cassinos do país, não fosse o fato de alguns meses após a inauguração dona Santinha ter convencido o presidente Dutra a fechar o jogo.
O Paulo Eugênio era um fenômeno pelo menos era o que a gente pensava. Tinha uma doença qualquer que atrapalhava seus movimentos, por isso quase não se movia sobre a mesa. Ficava na defensiva, com aqueles movimentos de cortes curtos para baixo na bola, que a gente chamava de nheco-nheco. A tática impedia o ataque do adversário. Era só o adversário cansar com o ataque para Paulo Eugênio desfechar um top spin mortal aquele golpe longo na bola, com a raquete fazendo um movimento de baixo para cima, que confere um efeito em forma de elipse. As cortadas de Paulo Eugênio eram apenas colocadas. Mas ele tinha um lance qualquer, uma forma de não olhar a bola, que sempre jogava o adversário no lado oposto da mesa.
Comecei a praticar o tênis de mesa aos 14 anos. Os mais antigos como o Romeu Popó, o Armandinho e o Ruidiziam que o tal do top spin tinha sido ensinado ao Paulo Eugênio por coreanos que foram jogar no Rio. Eu e o Amílcar Caselli Neto, o Netinho meu companheiro de treinosficávamos muito impressionados.
O grande momento do tênis de mesa em Poços foi quando Paulo Eugênio convidou Biriba para uma temporada no Quisisana, com direito a treinos diários matinais. A molecada da Caldense ia toda para lá ver o Biriba cortar e o Paulo Eugênio aparar.
Pois eu dizia do craque precoce. Biriba tinha 13 anos quando foi disputar o campeonato mundial, no Japão. Na segunda ou terceira rodada pegou o então campeão mundial, e o venceu. Há um lance no jogo que entrou para a história do tênis de mesa mundial. Foi quando o campeão japonês deu uma cortada forte, a bola bateu perto da rede e subiu que nem foguete. A bola passou por Biriba que, rápido como um raio, deu um salto e cortou a bola de costas, conquistando o ponto. A fotografia do lance foi aproveitado por uma fábrica japonesa para lançar a raquete Biriba, das mais prestigiadas da época. Depois disso, não havia moleque brasileiro que não sonhasse em ser como o Biriba.
Tive lá meu curto período de bom jogador, cheguei a ser campeão de Poços e vice da Média Mogiana. Depois, o Tiro de Guerra acabou com meu tempo livre e disputei um campeonato mineiro em péssimas condições técnicas.
Foi nesse campeonato que a glória de Paulo Eugênio atingiria o máximo. Venceu todos os campeões mineiros, um povo de Belo Horizonte que chegou em Poços achando que estava em cima da carne seca. Na decisão, destruiu o campeão Ivan em dois sets, deixando-o estatelado umas duas vezes no chão com seu estranho golpe de corpo.
Voltei a me entusiasmar com o tênis de mesa no ano seguinte quando, recém chegado a São Paulo, conheci o Pedrinho, filho de iugoslavos, dono de uma banca de revistas na rua Maria Paula, integrante da Seleção Paulista de Veteranos e um gozador incorrigível. O dia em que Pedrinho ficou de me apresentar o pai de Biriba foi o mais glorioso de minha curta carreira de caipira recém-chegado a São Paulo. Saí mais cedo da faculdade só para antecipar o grande encontro.
Seu Biribão tinha uma loja que vendia frangos engradados, na Vila Maria Alta. Lá, o pai coruja mostrou os álbuns com recortes de jornais sobre o filho. Depois, explicou que a carreira de Biriba começou a declinar com a idade, porque sua grande vantagem eram as pernas ágeis de menino.
A conversa fluiu e perguntei de Paulo Eugênio. Ah, o Paulinho, grande amigo nosso, disse ele. E grande jogador, né?, arrisquei. Não, como jogador era fraquinho era o velho Biribão dos frangos engradados deixando em frangalhos a reputação do nosso campeão. Tentei argumentar: Fraco perto do seu filho, que quase foi campeão mundial. E seu Biribão, decretando a sentença de morte em minha crença de que algum dia poderia vir a me tornar um bom jogador: Que nada. Até eu ganhava dele.
Nunca contei essa história em Poços para não desiludir a minha geração de mesatenistas. Conto agora, porque acho que eles já estão em idade de absorver esse golpe.
Para incluir na lista Crônica Semanal
enviada por Luis Nassif
22/07/2007 09:38
A República Livre da Fazenda da Pedra
Esse povo do nordeste, que tem justo orgulho das suas raízes, não economiza para enaltecer Antônio Conselheiro, quando este declarou independência do Brasil. Mas lá na nossa região tivemos também um levante bonito, que quase culminou com a constituição da República Livre da Fazenda da Pedra.
O coronel José Custódio Dias de Araújo, Zeca da Pedra, dono da Fazenda da Pedra, era o maior chefe político de Campestre, no sul de Minas. A Pedra em questão era uma portentosa pedra, no meio de suas propriedades, de onde se avistavam muitas cidades vizinhas. Quando Tiradentes foi feito em picadinho, sua família saiu da região de Ouro Preto e foi se abrigar justamente na Fazenda da Pedra.
Nasceu lá em 1858 e morreu no Rio em 1943. Foi vereador em Campestre, e concessionário da linha telefônica Poços-Campestre, de 1905 e da Empresa de Luz Elétrica de Campestre. Pertencia à mesma linhagem do capitão-mor de Machado, Custódio José Dias, participante de 2a Junta Governativa de Minas, em 1822, e do padre José Custódio Dias, senador do Império, que participou da abdicação de Pedro I.
Era o chefe absoluto de Campestre até se meter com Arthur Bernardes, o todo-poderoso presidente do Partido Republicano Mineiro. Quando Bernardes assumiu, dentro do processo de renovação do PRM sugeriu ao coronel Zeca abrisse mão da candidatura à Câmara estadual em favor do próprio filho. O coronel não aceitou:
- Proponho que meu filho fique na bitola estreita, candidatando-se à Câmara Estadual, enquanto eu vou para a bitola larga, a Câmara Federal.
Bernardes não topou e romperam politicamente. A partir de então o coronel sofreu perseguição política implacável, que culminou com a mudança das divisas municipais. O coronel acordou uma manhã e, em lugar de Campestre, sua fazenda havia sido transferida para Machado. Mudaram a pedra de município.
Anos depois, faleceu o presidente mineiro Raul Soares, sendo substituído por Mello Vianna. Em Belo Horizonte chegou a notícia que Zeca da Pedra havia comemorado a morte servindo "cerveja para os miúdos, champanhe para os graúdos", e declarado a independência da República da Fazenda da Pedra. Conseguiu a adesão do padre local, proibiu a entrada na cidade do coletor de impostos, que nem seu antepassado, e ficou esperando, com batedores encarrapitados na pedra para observar a movimentação das tropas adversárias.
Você veja que não foi Itamar quem inaugurou essa mania em Minas de colocar PM para cercar a represa. Foi o coronel Zeca da Pedra, e para cercar a pedra. Imediatamente o PRM mandou tropa de 50 soldados incumbidos de prender o Zeca e recuperar a pedra
A tropa chegou em Poços de Caldas e foi solicitar condução ao delegado local. Este, de férias, havia sido substituído pelo interino, José Luiz de Araújo Dias, dono da companhia elétrica local, e mais conhecida por Luiz da Pedra, filho do Zeca da mesma.
Nos anos de 1927 e 1928 o engenheiro Dias construiu uma estrada para automóveis de Poços a Machado, passando por Campestre, financiada por seu pai, o Zeca da Pedra.
Enquanto providenciava a condução, Luiz da Pedra enviou mensageiros para alertar o pai. Zeca da Pedra juntou todo o dinheiro que tinha e fugiu para São Paulo. Dali, para a Ilha da Madeira. Em São Paulo, com medo de ficar com muito dinheiro na mão, acabou adquirindo alguns terrenos onde, anos depois, o governo paulista instalou o Aeroporto de Congonhas.
Aliás, no dia da inauguração do aeroporto, Assis Chateaubriand envolveu-se em um rolo com o marido de uma amante, pegou o revólver e deu um tiro. A bala foi em direção a um dos orgulhos nacionais: a boca de Guilherme Olímpio, jornalista bonito que nem o diabo, com passagens por Hollywood e dono da dentição mais perfeita do país. Por puro reflexo, Guilherme abriu a boca, a bala entrou, atravessou a garganta, deixando intactos seus dentes.
Os soldados da Força Pública rumaram para Campestre, mas não encontraram o Zeca. Ficaram alguns dias na cidade em perfeita ordem, até o justo momento em que um italiano local, dono de uma vinícola, teve a infeliz idéia de convidá-los a provar o vinho. Produziu-se um terremoto inédito na cidade. Os soldados pararam o relógio da Matriz a tiro, invadiram uma fazenda das imediações e praticaram tiro ao alvo em uma vaca do fazendeiro Bié Junqueira, mais conhecido por Bié Calado, por gostar muito de ouvir, e poucos terem ouvido algum dia sua voz.
Bié Calado estava na fazenda Recreio, de Poços de Caldas, quando comunicaram o fuzilamento de sua vaca.
Ele disse:
- Canalhas!
E voltou a se calar.
Para incluir na lista Crônica Semanal
enviada por Luis Nassif
21/07/2007 17:11
A saga de Álvaro Alberto
O desenvolvimento da moderna pesquisa tecnológica brasileira está diretamente associado à energia nuclear. Nos anos 70, o início do programa nuclear Brasil-Alemanha levou o então Secretário de Tecnologia do governo Figueiredo, José Israel Vargas, a montar os primeiros programas sistemáticos de qualidade. O fracasso do programa levou o Conselho Nacional de Energia Nuclear (CNEM) a montar uma parceria inédita com a Universidade e, através do IPEN (Instituto de Pesquisas Nucleares) a controlar o processo de enriquecimento do urânio.
No início dos anos 50, foi a busca do domínio sobre a energia nuclear que levou o governo criar o Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq) e entregar seu comando ao almirante Álvaro Alberto.
Naqueles anos, o Brasil esteve a ponto de ter seu primeiro reator atômico, uma história ainda pouco conhecida. A guerra fria já começara quando Álvaro Alberto esteve nos EUA. Uma sucessão de acordos militares mal explicados tinha conferido aos americanos o monopólio sobre a pesquisa de minerais brasileiros. Na época, Álvaro Alberto havia enviado minérios brasileiros à França, na esperança de conseguir o apoio dos franceses ao projeto nuclear brasileiro. Quando a informação vazou, provocou enorme reação de Washington.
Em sua visita aos EUA, Álvaro Alberto havia se avistado com o pai da bomba atômica americana, o físico Robert Oppenheimer. Os acordos firmados com os EUA garantiam ao Brasil a entrega de alguns reatores pequenos, apenas para pesquisa de laboratório. O conselho de Oppenheimer havia sido outro: No Brasil, não há o que discutir (...) Tem que fazer logo o reator atômico, disse-lhe o físico. Sugeriu a construção de um reator simples. Deixem essa história de reator experimental e façam um reator desse tipo, porque servirá de escola para vocês.
Seguindo a sugestão, e ante a resistência dos EUA em fornecer tecnologia, Álvaro Alberto encomendou à Alemanha três unidades de ultracentrifugadores (sistema para enriquecimento de urânio). Isso foi em princípio de 1954. As tropas de ocupação da Alemanha não autorizaram a venda.
Tempos depois, restabeleceu-se a soberania da Alemanha. Mas um documento do governo americano ao brasileiro, que permaneceu sob sigilo por algum tempo, encerrou as negociações. Apesar do equipamento claramente não poder ser utilizado para fins bélicos, o documento dizia que o estabelecimento no Brasil de um processo de extração de urânio físsil (...) poder ser considerado como uma ameaça potencial à segurança dos Estados Unidos e do Hemisfério Ocidental.
Foram necessários quase cinqüenta anos para se recuperar o terreno perdido e se dominar o ciclo de enriquecimento de urânio. Mas as sementes plantadas por Álvaro Alberto já tinham encontrado terra fértil, ajudando a forjar a parte mais avançada da pesquisa tecnológica brasileira.
Para incluir na lista Crônica Semanal
enviada por Luis Nassif
10/07/2007 22:03
A maior cena da história
Eu tinha oito anos quando enfrentei o maior desafio da minha vida: a final da Copa do Mundo de 1958. A campanha brasileira havia sido magnífica. Os canarinhos eram da família, pois haviam feito a concentração em Poços de Caldas, graças às ligações entre meu pai, Oscar, e Carlos Joel Nelli, da Gazeta Esportiva.
Lembro-me até hoje do batizado da minha irmã Inês sendo interrompido pela notícia de que o Brasil acabara de fazer dois a zero na Rússia e o padrinho Dr. Martinho, e o padre Trajano, e os pais da batizada comemorando. E a batizada chorando, sem entender nada.
Parecia um sonho, até que se chegou à final contra a Suécia. No dia anterior, meu pai acordo macambúzio. Contou-me a desgraça de 1950 no Maracanã, o Brasil, amplo favorito, sendo derrotado pelo Uruguai. Desde então, a imagem que se consolidara era a do país que amarelava na final, que não acreditava em si, que tinha talento mas não tinha fibra. E foi com esse fantasma pairando sobre nós que fomos assistir o jogo na casa do seu Alexandre, nosso vizinho.
A transmissão era pela Rádio Bandeirantes, meio tempo com a locução do Pedro Luiz, meio tempo com a do Edson Leite. Mal começa o jogo, a Suécia faz um a zero. Fez-se um silêncio sepulcral não apenas ali, mas em todo o país.
Olhei o largo do São Benedito, que ficava em frente de casa e ainda não tinha sido asfaltado. No centro, a Igrejinha de São Benedito, linda, caiada, no seu interior as pinturas preciosas da Via Sacra, na frente dela, a escadaria com vinte degraus. Ali mesmo fiz a promessa: se o Brasil virasse o jogo, além de ir na missa com milho no sapato, eu me comprometeria a lamber, um a um, os degraus da Igreja. Cumpri o prometido, contei para minha mãe que lavou minha boca com álcool. Mas o Brasil merecia o secrifício.
Não havia televisão na época em Poços, não havia transmissão ao vivo no Brasil. Mas Pedro Luiz descreveu a cena tal e qual a assistimos dezenas de vezes, nos anos seguintes, seja no cinema, pelo Canal 100 de Carlos Niemayer, seja pela televisão. E descreveu com aquela voz inigualável, de emoção contida, contando todos os detalhes do lance, não apenas os principais.
Foi por sua voz que vi, nascendo, a maior cena da história do país. Enquanto a Seleção parecia imobilizada em campo, Didi foi até o nosso gol, pegou a bola no fundo das redes, colocou-a debaixo do braço e caminhou em direção ao meio do campo, carregando-a como se carrega a um fuzil. Foi andando normalmente e, no caminho, soltando palavras de incentivo aos seus soldados.
O que se viu, dali para frente, jamais o mundo veria outra vez, nem em 1970, nem em 1974 com a Holanda, nem em 1982, com a Seleção de Telê. Era como se não apenas a Seleção, mas o Brasil florescesse como uma laranjeira em flor. Os ecos da Semana de 22, o canto orfeônico de Villa-Lobos, as descobertas culturais de Mário de Andrade, a geração de 1942, os regionalistas, os cantores populares, de repente tudo aparecia nítido aos olhos do mundo e, principalmente, aos olhos do país. Habemus um país.
O derrotismo, a baixo auto-estima, o complexo de inferioridade, tudo foi sendo varrido da frente por aqueles passos compassados, firmes do capitão Didi em direção ao meio do campo.
Quando Didi morreu, alguns anos atrás, recordei-me dele em Poços, em 1958 e 1962, a maneira como fazia os exercícios, suas corridas estacionárias nos treinamentos individuais, os lançamentos esplendorosos nos coletivos, o gol de folha seca.
Mais tarde foi para o Real Madri, dizem que sofreu boicote do grande Di Stefano. Depois, largou a mulher e se casou com a branca Guiomar. Foi alvo de campanhas preconceituosas de jornais, nada que reduzisse em um milímetro a admiração e gratidão que os brasileiros lhe devotavam.
Os EUA celebram a foto dos fuzileiros em Ivo Jima. O Brasil sempre celebrou o grito do Ipiranga, no quadro de Pedro Américo. Mas para a minha geração, do menino de 8 anos aos velhos septuagenários, a cena de Didi, sua caminhada do nosso gol até o meio de campo, foi um marco, um corte no país que teimava em nascer.
Nos anos seguintes, a auto-estima do país chegaria ao auge. Mesmo com todos os percalços políticos, resistiria incólume ainda por muitos anos.
enviada por Luis Nassif
08/07/2007 09:53
Dois poetas jovens
Enviado por: Silvana
Nassif,
Eis um poeta português pouco conhecido, mas de grande brilhantismo. Morreu ainda jovem, aos 26 anos, em 1916. Foi um dos maiores nomes do Modernismo português!
Veja que primor, que delicadeza, o poema abaixo, de MÁRIO DE SÁ CARNEIRO:
Quase
Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...
Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...
Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh\'alma tude se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dor de ser-quase, dor sem fim... -
Eu falhei-me entr os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...
Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...
Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...
Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...
Carlos Pena Filho
E aqui, o poeta recifense Carlos Pena Filho, um dos grandes, precocemente falecido ainda nos anos 60. Ele tinha por característica essa fixação poética no azul.
Soneto do Desmantelo Azul
Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori, as minhas mãos e as tuas.
Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas,
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.
E afogados em nós, nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço.
E perdidos de azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul. Azul.
Enviado por: Joaquim Dantas
Nassif,
Do mesmo Carlos Pena Filho, essa que talvez lhe saiba mais:
"CHOPP
Na Avenida Guararapes,
o Recife vai marchando.
O Bairro de Santo Antônio,
tanto se foi transformando
que, agora, às cinco da tarde
mais se assemelha a um festim,
nas mesas do bar Savoy,
o refrão tem sido assim:
São trinta copos de chopp,
são trinta homens sentados,
trezentos desejos presos,
trinta mil sonhos frustrados.
Ah, mas se a gente pudesse
fazer o que tem vontade:
espiar o banho de uma
outra, amar pela metade
e daquela que é mais linda
quebrar a rija vaidade.
Mas como a gente não pode
fazer o que tem vontade,
o jeito é mudar a vida
num diabólico festim.
Por isso no Bar Savoy,
o refrão é sempre assim:
São trinta copos de chopp,
são trinta homens sentados,
trezentos desejos presos,
trinta mil sonhos frustrados."
enviada por Luis Nassif
07/07/2007 22:24
As orações do Brasil
O tempo acaba sufocando muitas lembranças da infância. Uma delas foi a religiosidade católico-mineira, tão presente naquelas fraldas da Mantiqueira por onde se chegava subindo a montanha e, depois, entrando na boca do vulcão, da minha Poços de Caldas.
Hoje em dia tornei-me cidadão contemporâneo, amarrado ao ritmo da vida moderna, à neurose das grandes cidades, escravo do tempo e dos prazos. Mas meus mortos e minhas lembranças sempre renascem uma vez por ano, quando o país se recolhe e celebra Todos os Santos e Finados.
Cresci em ambiente católico, fiz a primeira comunhão, e fui escolhido, junto com uma coleguinha francesa para compor o casal que receberia a hóstia consagrada na frente do altar, em nome do grupo da irmã Terezinha, a irmãzinha leiga que nos preparou para o mais belo dos sacramentos, mais bonito que o batismo e o casamento.
Admito que nos ensaios engasguei com a hóstia e a tirei do céu da boca com minhas mãos ímpias, ainda bem que não consagrada, caso contrário jorraria o sangue de Jesus crucificado
Depois, fui Cruzado Mariano, Apóstolo, fiz as Treze Sextas Feiras e quase completei os Cinco Sábados. Usava Escapulário e Agnus Dei, ambos garantindo a salvação eterna e o aviso da morte, um dia antes, comunicado diretamente por Nossa Senhora.
O Escapulário é um saquinho de pano, com um cordão para pendurar no pescoço. Dentro, tem o coração de Jesus e o de Maria bordados em pano. Já o Agnus Deis é uma medalhinha benta, que se prega na roupa com alfinete. Aberta, mostra lado a lado os corações de Jesus e de Maria.
Se esses símbolos impressionavam, assim como o brasão dos Cruzados, as músicas não ficavam atrás. Jesus Cristo está realmente / de dia, de noite, presente no altar / esperando que cheguem as almas / ansiosas, silentes, para o visitar), era nosso hit, principalmente na missa das onze, na Matriz.
Havia as músicas de procissão, algumas muito chatas, como o queremos Deus / homens ingratos / ao pai supremo, ao redentor e muitas em latim. E havia as orações das missas, algumas épicas, de arrepiar, como o trecho que fala em Santo, santo, santo / é o senhor Deus dos exércitos / hosana nas alturas / bem vindo os que vêm em nome do senhor.
As orações para crianças eram particularmente encantadoras. Nem sei se foram preservadas para as novas gerações católicas. Para dormir, podia-se escolher entre duas clássicas, ambas dedicadas ao Anjo da Guarda. A minha preferida era: Santo Anjo do Senhor / Meu zeloso guardador / Se a ti me confiou a piedade divina / que me guarde, que me rege / me governe e me ilumine. Havia outra, muito popular, mas que considerava meio bobinha para os meus dez anos: Com Deus me deito / Com deus me levanto / Na graça de Deus / do divino Espírito Santo / Para Anjo da guarda que me guarde / São Jose rogai por mim / agora e na hora de minha morte, amém.
Havia uma oração especial na família, o Salmo 90, oração de proteção. Carlos Lacerda morreu com um Salmo 90 na carteira, provavelmente o mesmo com que foi presenteado por minha avó Martha, escrito com sua letrinha graciosa. Logo após o atentado da rua Toneleros ele telefonou para meu avô Issa, para dizer que tinha sido salvo pelo Salmo 90. Quando comecei na profissão, a primeira providência da vó Martha foi escrever o Salmo 90, que eu trazia na carteira comigo.
E havia as orações clássicas: Ave Maria, que não me comovia muito, Pai Nosso, que a gente falava antes padre nosso, e mencionava os nossos devedores, o Credo que era mais um exercício de memória, do que de emoção. E o Salva, Rainha. E aí, meu amigo, era como se a gente fosse transportado para os umbrais do tempo, para o início das religiões, para os mistérios divinos. Salve Rainha, mãe de misericórdia / a vida, doçura, esperança nossa, salve / A vós bradamos os degredados filhos de Eva / a vós suspiramos, gemendo e chorando, nesse vale de lágrimas / Eia, pois, advogada nossa, vossos olhos misericordiosos a nós volvei / E depois desse desterro nós mostrai Jesus / bendito fruto do vosso ventre / ó clemente, ó piedosa, ó doce, sempre Virgem Maria / rogai por nós, Santa Mãe de Deus / para que sejamos dignos das promessas de Cristo.
Para incluir na lista Crônica Semanal
enviada por Luis Nassif
Feed: Seja avisado quando este blog for atualizado ::
(O que é isso?)